Subindo A Linha

À caça

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Vinicius Prado Januzzi

Há pouco tempo escolhemos o Corinthians. Um pouco depois, parecia ser o Cruzeiro. Talvez a bola da vez seja o Inter. No fim de 2014, além da Raposa, o São Paulo estava em nossa mira. Antes, o Atlético Mineiro tomou o cenário esportivo. Times e mais times se tornaram alvo de especulação e de um desejo, ao menos por parte (de parte) de nossos torcedores: seriam eles uma esperança para o nosso futebol?

Não é preciso gastar muitos neurônios para perceber que não. Não precisamos nem ir tão longe para perceber que esses clubes não representam um retorno idílico ao que queremos para o futebol, para a seleção brasileira e para os/as nossos/as jovens craques.

O reinado de cada um dos clubes que amamos adorar por breves semanas não dura muito; não passam de dias, no mais das vezes. Estouram, arrebatam corações e logo pipocam, sem mais nem menos. Seus craques logo somem ou vão para centros futebolísticos sem muita expressão. Esse texto, no entanto, não é uma crítica direta aos jogadores e aos clubes. Não são somente eles os responsáveis por toda a treta que vivemos nos nossos gramados.

O que estamos atualmente vivendo no futebol é um pouco exemplar desses problemas todos. Alguns dos principais dirigentes da FIFA são acusados de fazer pactos demoníacos, a CBF está envolvida no meio, algumas federações se posicionam a favor e contra, o FBI assume a postura de uma agência da Cruzada internacional e aí os louvamos por nos salvarem dos mouros. É uma briga de cachorro grande. E Blatter foi reeleito. E também renunciou.

Nessa confusão de bons samaritanos e feras insaciáveis, em suas constantes trocas de posição, inspiradas provavelmente na Holanda de 74 ou nos times de Guardiola, damos todos as mãos e felizes vamos todos ao fundo do poço. E logo que um time se destaca no cenário nacional, fazemos dele a nossa expiação, do seu jogo os nossos sonhos, de suas táticas análises mirabolantes a constatar inovações revolucionárias. Como diria uma filósofa da última metade do século XX: “Uhum, senta lá, Cláudia!”

Poucos discordarão se disser que o futebol brasileiro não é mais brilhante; se dissesse que é o melhor do mundo, como alguns ainda fazem, seria alvo de chacota. Ganhamos uma Copa do Mundo há 13 anos? Sim. Ganhamos algumas das últimas Copas das Confederações? Sim. Vencemos alguns torneios de categorias de base? Também. Enfim, estão todos bem? Alguém acredita na seleção brasileira e em nossos clubes?

Sintomáticas nesse sentido são muitas das frases que ouvimos quando um time brasileiro perde em competições sul-americanas ou mesmo quando um time considerado grande perde de algum considerado pequeno. “Zebra no estádio X”. Será que derrotas como a do Corinthians para o Guaraní ou a vitória do São Lorenzo na Libertadores do último ano são resultados improváveis?

Não é possível negar a superioridade financeira dos clubes brasileiros em relação aos demais times sul-americanos e seria má-fé esconder a desigualdade brutal entre os próprios times nacionais. Ainda assim, a despeito disso, times grandes caem e times brasileiros perdem de forma bisonha. Há muitas e muitas coisas para se pôr no papel antes de qualquer diagnóstico. Agora, há algo muito claro: não somos a pátria de chuteiras, ou qualquer outra coisa grotesca parecida com isso; não somos os melhores em campo e em gestão. Nossas torcidas, se nos dão um alento, estão sendo transformadas em seu perfil. E o problema do Brasil em julho de 2014 foi um maldito boné.

Estamos perdidos. Completamente desorientados. Ou melhor dizendo, seguimos uma orientação específica: excluímos, espancamos e fazemos de boa parte de nossos times um misto de volâncias brutas e ataques dos mais sem graça que possamos imaginar. Seguimos na fé, à caça de algo e alguém que nos salve, enquanto os predadores se sentam mesmo ao nosso lado, acompanhando sorridentes as zebras que vez ou outra surgem e os times revolucionários que são tão duradouros como a saga brasileira contra a Alemanha.

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