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Jogos às 22h – A morte do trabalhador

José Eduardo

Estádios lotados, 100 mil pessoas e uma nação fanática por futebol. Tudo isso é passado. Hoje, o falido campeonato brasileiro desagrada em muitos aspectos. E o jogo às 22 horas é um agravante fatal à falência.

O imperialismo da Globo já existe há tempos no futebol brasileiro. Como já dito, aqui, a emissora não faz nem questão mais de esconder o fato. O problema é que ela contribui diretamente para o esvaziamento dos estádios com o horário das partidas.

Verdade seja dita, o principal fator para que 30 mil pessoas nos estádios seja um público bom é o alto preço do ingresso. O futebol moderno matou o pobre, excluiu a festa.

Mas este horário não sai impune. E não é só a Globo, apesar de ordenar que os jogos sejam neste horário, que é vilã no caso.

A começar pelo transporte público de algumas cidades. Como um trabalhador consegue sair do serviço e chegar ao estádio em segurança? E essa parte independe do horário. Mas o pior é após o jogo. Ônibus e linhas de metrô, meia-noite, são mitos. Ninguém sabe, ninguém viu.

Depois, mesmo que o trabalhador consiga o transporte, ele não chegará em casa cedo. Mesmo que more perto, os vagões e automóveis estão lotados. O desconforto e o atraso fazem com que o torcedor pense mil vezes antes de ir à arena.

E mesmo aquele que dispuser de um carro particular, cedo não chega em casa. Com a falha no transporte público, os engarrafamentos quilométricos, na ida e na volta, são a norma.

Agora se ponha no lugar de um torcedor. Sair de casa 20h, esperar duas horas abundado no carro, pagar 15 reais de estacionamento, 50, 100 de ingresso, e chegar em casa 1 da manhã. Ter de acordar as 6h30min para levar o filho à escola e ir à labuta diária. Pior, com a incerteza de um jogo bom. Atrativo?!

Pois, visualize a imagem do torcedor que usa o transporte público. Ficar 2 horas amontoado em um ônibus de má qualidade, descer, andar vinte minutos até o estádio, ter de pagar o ingresso caro, ver um jogo de qualidade duvidosa, esperar meia hora, quarenta minutos até o ônibus chegar, andar mais uma, duas horas de transporte público, até o destino final. Então, dormir 2 da manhã e acordar às 6 para mais um dia cansativo. Ufa, uma maratona!

Aí você pensa: ” O que a Globo tem a ver com isso?” Tudo. A Globo usa deste horário para afastar o torcedor do estádio. Com o convite nada agradável de passar pelas situações acima, o torcedor prefere assistir às partidas do conforto de sua casa, que no estádio. E a audiência vai toda para a dona Globo, detentora dos direitos do Campeonato Brasileiro e que monopoliza o Pay-Per-View. Enquanto a audiência da novela continua intacta.

E quanto mais se vê o torcedor acostumado ao horário, mais e mais, ele assina um pay-per-view e vê a partida da sua casa. Uma questão lógica. Se eu morasse na cidade em que meu time joga, fatalmente faltaria a algumas partidas por cansaço.

RESUMÃO SUBINDO A LINHA: CAMPEONATO BRASILEIRO – 8ª RODADA

Entre quinta e domingo aconteceram nove dos dez jogos dessa rodada, com uma média de público de mais de 20.892 torcedores por jogo. Ainda falta ser realizada a partida entre Fluminense e Ponte Preta, no Maracanã, quarta-feira.
A rodada teve dois clássicos estaduais, dois interestaduais, o confronto do líder com o lanterna e dois times grandes tropeçando em casa.
O campeonato vai superando seu primeiro quarto e tem muito time desperdiçando pontos importantes.

QUINTA-FEIRA
FIGUEIRENSE 0X0 INTERNACIONAL
ORLANDO SCARPELLI – PÚBLICO: 6.244

Abrindo a rodada, o Figueira recebeu o Colorado, que tem um bom retrospecto jogando no Orlando Scarpelli. O jogo, porém, foi pouco movimentado. O Inter pouco criou ao longo da partida e segue sem vencer fora de casa – semifinalista da Libertadores, é apenas o 13º no BR-15. O Figueirense atacou mais, mas não conseguiu marcar graças à boa atuação do goleiro Colorado Alisson e à incompetência na finalização, principalmente com Elias.

SÁBADO
FLAMENGO 0X2 ATLÉTICO-MG
MARACANÃ – PÚBLICO: 42.318

Na estreia de Sheik, o Galo venceu um dos maiores clássicos interestaduais do Brasil e jogou o Flamengo de volta à zona de rebaixamento. O Flamengo vinha de duas vitórias seguidas e o Atlético não vencia há dois jogos. O resultado segue a lógica que imperava no começo do campeonato: o time mineiro brigando lá em cima e o Flamengo como mero coadjuvante. Destaque para o golaço de Lucas Pratto e para a terceira vitória do Galo em três jogos contra cariocas.

SANTOS 1X0 CORINTHIANS
VILA BELMIRO – PÚBLICO: 7.674

No clássico paulista deu Peixe. Depois de cinco jogos sem vencer, o Santos soube aproveitar o clássico para arrumar a casa. Na Vila, contou com o faro de artilheiro de Ricardo Oliveira e com a contribuição de Cássio para achar um gol quase sem ângulo. Em desmanche, o Corinthians não pontuou em clássicos nesse campeonato brasileiro e vai confirmando que não brigará por título esse ano.

SPORT 2X1 VASCO
ARENA PERNAMBUCO – PÚBLICO: 19.139

Quando começou a rodada, o Sport era o vice-líder e o Vasco, o vice-lanterna. Quando começar a próxima, o Sport estará na primeira posição e o Vasco na última. O Sport vem fazendo excelente campanha, tem o melhor futebol do campeonato e a liderança é mais que merecida. Já o Vasco tem um futebol pífio, conquistou a quinta derrota seguida – antes disso, três empates – e tem o pior ataque da competição, com míseros três gols.

GRÊMIO 1X0 PALMEIRAS
ARENA DO GRÊMIO – PÚBLICO: 22.896

Nos embalos de sábado à noite, o Tricolor levou a melhor em um jogo que reúne muita tradição. Com um golaço de Maicon – que sempre soube finalizar no ângulo – logo no começo do segundo tempo, o Grêmio garantiu a vitória e manteve o bom carma de seu belo terceiro uniforme. Na estreia de Marcelo Oliveira, o Verdão mostrou que ainda terá trabalho em arrumar seu pomposo, populoso e reformulado elenco.

DOMINGO
CRUZEIRO 0X1 CHAPECOENSE
MINEIRÃO – PÚBLICO: 35.473

O horário de domingo pela manhã tem proporcionado dois fenômenos notáveis: bons públicos e tropeços dos times grandes. Depois de Grêmio, Palmeiras e Santos, o Cruzeiro não conseguiu vencer um time muito mais modesto. Sem jogar bem, o time celeste viu Camilo cobrar, com muita categoria, uma falta distante e Fábio cair atrasado no lance do único gol da partida. Depois de três vitórias em três jogos, Vanderlei Luxemburgo conheceu sua primeira derrota na volta ao Cruzeiro.

ATLÉTICO-PR 2X2 CORITIBA
ARENA DA BAIXADA – PÚBLICO: 30.120

O clássico paranaense foi um jogo movimentado, quente e com belos gols. O Coxa, que vem de uma fase difícil, conseguiu ficar à frente no placar duas vezes, mas tomou dois empates do Furacão, que habita o G-4 há algumas rodadas. Destaque para a linda finalização de Wellington Paulista no primeiro gol do alviverde e para o maior atacante do Brasil, Walter, que voltou a marcar com a categoria de sempre.

SÃO PAULO 1X1 AVAÍ
MORUMBI – PÚBLICO: 21.364

Um dia após a vitória do Sport, o Tricolor precisava vencer para retomar a liderança do campeonato brasileiro. O São Paulo criou várias chances ao longo do jogo, mas a falta de pontaria custou caro. Após o gol de Souza, o técnico Osorio mudou o esquema de jogo e colocou três zagueiros para marcar a bola parada do time catarinense. Com André Lime finalizando um rebote da defesa, o Avaí empatou aos 43 do segundo tempo e manteve a boa campanha como visitante – duas vitórias, um empate e uma derrota.

JOINVILLE 2X1 GOIÁS
ARENA JOINVILLE – PÚBLICO: 9.049

Após oito rodadas, o JECão venceu a primeira! E com muita emoção. De virada e com um a menos, o Joinville – com dois gols do estiloso atacante Kempes – se livrou da lanterna e do pior ataque da competição. O resultado dá ânimo para o time catarinense brigar, se não para fugir do rebaixamento, para fazer uma campanha digna. O Goiás, que rodadas atrás era vice-líder, já ronda o Z-4, na 15ª posição.

Sobre língua castelhana e transfusões de sangue

Arthur Siqueira

O ano é 2005. Em certo jogo da Final de um certo Mundial Interclubes, o meio campista de um certo time inglês adversário recebe a bola praticamente livre e avança em direção à meta de um certo goleiro artilheiro. Em sua cabeça, passa-se o filme dos momentos seguintes: ele avançaria em direção à baliza, driblaria o goleiro com facilidade e finalizaria com uma bomba no ângulo direito. Gritos da torcida, manchetes de jornais, glória. Antes do filme chegar aos créditos, algo o atinge por trás com uma força descomunal, arremessando-o alguns metros a frente e destruindo as ambições que haviam sido construídas em sua cabeça.

O zagueiro era Diego Lugano, e aquele lance, na metade do segundo tempo, definiu a maior virtude daquele São Paulo campeão mundial: o sangue nos olhos. Naquele momento, Lugano poderia facilmente ter sido expulso e o Tricolor seria esmagado com a desvantagem de um jogador importantíssimo aliada à clara superioridade técnica do time do Liverpool, mas na cabeça de Lugano, aquilo pouco importava. Ele sabia que tinha um dever como zagueiro: evitar o gol do time adversário. E isso deveria ser feito a qualquer custo. E ele foi lá e impediu. Tomou um amarelo que não avermelhou por muito pouco, e seguiu o jogo soberano na zaga. Aquilo era um São Paulo realmente vencedor. Jogadores não tão técnicos, como Aloisio e Edcarlos, mas que jogavam com garra e odiavam o sabor da derrota.

O retrato do time são-paulino hoje em dia é exatamente o contrário. O elenco é qualificadíssimo. Diversas estrelas, com salários astronômicos e nomes tão pesados que poderiam criar um campo gravitacional ao seu redor. Mas ao contrário daquele time que o torcedor tricolor tanto sente saudades, sobra qualidade e falta garra. Falta gana de vencer, falta a náusea causada pelo sabor da derrota. Jogadores como Paulo Henrique Ganso, um primor de técnica, um dos mais talentosos meias da geração brasileira mais recente, mas que não se dá o trabalho de correr atrás de uma bola perdida, dão a cara desse São Paulo atual.

Briga sozinho no meio de um mar de morosidade e conformismo o mito Rogério Ceni, que é mito e será para sempre no coração do são paulino justamente por ser o último que sente a dor da derrota. Que sai de campo xingando a puta que pariu o juiz por uma derrota. Que como um médico que tenta desfibrilar o paciente mesmo bons minutos depois de sua morte, tenta colocar algum sangue na veia de jogadores claramente sem vontade de estar ali suando a camisa do São Paulo. Sem sucesso algum, como se pode ver no comportamento dos jogadores.

Esse é o maior desafio de qualquer um que ouse vestir o agasalho de técnico do São Paulo. Fazer um grupo vencedor saber que eles estão infestados pela mediocridade. Que mesmo tendo vencido quase todos os jogos em casa, isso não basta para ser campeão, pra colocar sorriso na boca do torcedor na segunda feira e encher estádio na quarta. Essa missão hoje está na mão de Juan Carlos Osorio, colombiano que veio em uma tentativa da diretoria de fazer algo diferente do que é o futebol e os técnicos brasileiros atualmente.

Uma árdua tarefa para quem está no comando de um clube que se tornou cada vez mais soberbo e sem alma com o tempo, e que acumula vexames e mais vexames nos momentos em que o torcedor mais se alegraria com a vitória. Alguém que mostre ao time que não está tudo bem em brincar com o adversário após uma eliminação, e que se não for jogar por amor ao São Paulo, que jogue por gratidão à torcida que o apoia e que chora com a sua derrota.
A meta de Osorio tem que ser tornar o São Paulo mais Lugano, menos Ganso. Mais carrinho no Gerrard, menos risadinha na saída do campo depois de perder clássico. A língua eles já têm em comum, resta saber agora se o coração e a capacidade de contagiar o time com o tesão pela vitória são parecidos. Está nas mãos de Osorio fazer bater o coração do time do São Paulo, e colocar um pouco de sangue em olhos que não brilham pela vitória.

Grita Torcedora: Queremos mais futebol feminino!

Tathiana Abreu

Durante muito tempo eu acreditei não gostar de futebol. Os motivos eram muitos: não sou uma pessoa competitiva, não me interesso por esportes, prefiro fazer outras coisas com o meu tempo, as torcidas são muito hostis e violentas. Acontece que, ultimamente, venho descobrindo que muito do que eu coloquei pra mim como o que eu gosto ou não gosto não fui eu quem decidiu. Cada um desses motivos elencados para justificar minha falta de interesse pelo futebol tem um outro motivo mais profundo por trás.

Por exemplo, o fato de eu não ser uma pessoa efetivamente competitiva não necessariamente significa que eu não seja capaz de me envolver ou torcer em alguma situação que eu veja meu país (ou meu time) se esforçando para conquistar algo, não tenho sangue frio para não me envolver em um grito de alegria ao ver um grupo que eu admiro e que me representa chegar a uma vitória… e é aí que entra a raiz da questão. O futebol nunca foi algo que me tocou pessoalmente porque nunca me senti representada por ele. Pelo contrário, todos os mecanismos do futebol são voltados a ter homens como protagonistas, desde o campo até as torcidas. Eu, sem saber, internalizava: o futebol não é para você, não seja inconveniente, não seja intrometida, lugar de mulher é assistindo novela (ou séries, ou comédias românticas).

Na televisão, todos aqueles longos programas em que se discute as minúcias das partidas de futebol mais recentes, em que se fala sobre tudo desde o cabelo do Neymar até as últimas peripécias do Messi, é muito difícil encontrarmos alguma comentarista mulher, quando existem mulheres nesse tipo de programa geralmente estão em minoria (é comum ver uma mulher sozinha entre vários homens), são jovens, bonitas, padronizadas. Não que uma mulher dentro dos padrões não possa gostar de futebol e opinar bem sobre, mas ninguém ali está interessado em suas opiniões (salvo algumas exceções que podem vir a existir), ou seja, mesmo quando “aceitas” naqueles ambientes as mulheres são intimidadas e constantemente silenciadas. Estão em posição secundária, estão ali para serem decorativas, sorridentes e agradáveis, mediarem discussões nas quais não estão envolvidas, mesmo que por vezes tenham algo a contribuir.

Nos campos a atenção é voltada exclusivamente para times e seleções masculinas, muitas vezes a associação entre atleta que joga futebol e homem é implícita, não é necessário explicar que você vai assistir um jogo da seleção masculina. Basta apenas dizer que vai assistir a seleção. Maior prova disso é que hoje acontecem, simultaneamente, dois eventos de futebol: a copa américa de futebol masculino e a copa do mundo de futebol feminino. E o que se discute nas mesas de bar e nas filas do pão não é, em sua maioria, o desempenho, até agora exemplar, da seleção feminina, e sim a atuação, não tão exemplar assim, da seleção masculina na copa américa.

Decidi fazer um experimento e tentar acompanhar todos os jogos femininos que eu puder, tratando o evento com a mesma importância com a qual foi tratada a copa do mundo de futebol masculino ano passado. Confesso que a experiência têm sido um pouco frustrante, é bem mais satisfatório se sentir empolgada com algo quando o resto do Brasil está igualmente empolgado, é mais provável ficar feliz com uma vitória do time brasileiro se essa vitória garante que seu expediente ou horário de aula será reduzido para que você possa acompanhar os jogos. Mas, ainda assim, em questão de qualidade, força de vontade (mesmo sob condições adversas http://www.ladobi.com/2015/06/grama-sintetica-copa-futebol-feminino/), a seleção das meninas não deixa nada a desejar, pelo menos na humilde opinião de alguém que acompanha o futebol bem esporadicamente! Os jogos são empolgantes sim, e, pessoalmente, percebi que é bem legal ter a experiência de olhar a tv e ver mulheres fazendo bonito em um esporte que não é considerado feminino, pelo simples motivo de alguém ter decidido isso a muito tempo atrás!

Os desafios das atletas do futebol feminino são muitos, se dedicar a ser uma jogadora profissional de futebol não garante os privilégios, dinheiro e glamour que um jogador de futebol bem sucedido tem. Pelo contrário, é uma demonstração de coragem se propor a desempenhar uma profissão que não vai necessariamente te garantir estabilidade financeira e um futuro confortável para além dos campos (http://www1.folha.uol.com.br/esporte/2015/05/1630038-ex-capita-da-selecao-brasileira-vira-motorista-de-onibus-no-rio-de-janeiro.shtml), mas essas mulheres existem, e estão ai para provar que, contra tudo e todos, são merecedoras de reconhecimento.

A intenção aqui não é ir contra a cultura do futebol masculino, não repudio nem julgo quem gosta do esporte em sua forma mais divulgada, afinal, a grande paixão nacional é paixão por um motivo. Longe de mim querer  policiar o que cada um gosta e dizer o que deve ou não fazer as pessoas felizes. Eu mesma de vez em quando me arrisco a assistir um jogo ou outro, tenho amigos, família e namorado, pessoas que admiro que têm o futebol como uma parte importante de suas vidas. E isso desperta sim o meu interesse, principalmente depois que descobri que é possível tentar lutar pelo meu espaço naquele ambiente e me sentir mais confortável dentro dele.

Enfim. Acho que o que tentei dizer aqui foi: não acho que mulheres devam necessariamente assistir somente partidas de futebol feminino, mas seria bom ter a opção!

Grita TorcedorA: Machismo, um impedimento do futebol

(Lugar de mulher é no estádio também)

Bruna Ribeiro

Desde que me lembro, sou Corinthians. Fui no estádio ver Corinthians e Goiás pela primeira vez quando tinha 6 anos. Lembro do time campeão em 98 e 99, e de todas as vezes que comemorei com meu pai os gols do Marcelinho Carioca. Sei vários gritos e cantos da torcida no estádio, e acho a forma da torcida cantar o hino, versão que conheço bem e já cantei diversas vezes, muito mais bonita do que a versão original.

Mesmo sendo Corinthiana maloqueira e sofredora (graças a Deus) desde que me entendo por gente, o futebol sempre pareceu um pouco hostil. Me lembro bem de um lance, quando eu tinha cerca de 14 anos, que me fez discutir com o meu pai. O debate se encerrou com ele me questionando se eu iria realmente discutir sobre aquilo com ele. Antes eu achava que era porque eu era muito nova, e ele, muito mais experiente, sabia muito mais que eu, fazia sentido. Hoje sei que é porque sou mulher, e isso não faz sentido.

Não faz sentido ser mulher que gosta de futebol e ter que ser questionada se sei o que é um impedimento. O que é tiro de meta ou um gol olímpico. Claro que essas coisas são parte do esporte e quem acompanha acaba sabendo, como eu, de fato, sei. Mas nunca vi nenhum amigo ser questionado por isso. Nunca vi um homem virar pro outro e falar “ah, gosta de futebol? Me diz aí o que é um impedimento”. Homem nenhum passa pelo teste que é regra para as mulheres.

Acho que isso é o que mais me incomoda no futebol, o fato de que ele é feito por homens e para homens. Isso não se reflete apenas quando a seleção feminina é negligenciada mesmo sendo tão vencedora, mas no dia-a-dia de mulheres que gostam dessa cultura tão brasileira e não percebem outras mulheres envolvidas, sendo frequentemente tratadas como ignorantes ou merecedoras de passarem por testes para saber se seu interesse é real, porque aquilo ali é “coisa de homem”. Mulheres só são naturalmente aceitas no futebol quando se colocam em posições como “Musas do futebol”, em que são facilmente objetificadas, julgadas e mal tratadas por homens e por outras mulheres.

Não estou, nem de longe, a ser a mulher mais interessada em futebol que já vi. Existem mulheres que são muito mais questionadas, julgadas e humilhadas nesse meio do que eu.
Meu apelo é que esse ambiente tão masculinizado, até por outras mulheres, coloque o público feminino como parte de uma única torcida.

Por fim, resta dizer, VAI CORINTHIANS!

Uma desinteressante Seleção Brasileira

Pedro Abelin

Quarta-feira, 21h, o Brasil fazia seu segundo jogo na Copa América em partida contra a Colômbia. O confronto apresentava todos os ingredientes para ser um bom jogo: revanche da Copa do Mundo, estádio lotado e Neymar e James Rodríguez em campo. Ao contrário de épocas anteriores, contudo, minha percepção sobre o jogo era de pouca empolgação. Digo isso como mero recurso retórico, pois a verdadeira sensação que tinha era de certa indiferença sobre torcer para a seleção. E para ser bem sincero, indiferença é a palavra que traduz meu sentimento em relação à seleção brasileira nos últimos anos.  Confesso que assisti à peleja muito mais pela expectativa de ver grandes lances e belos gols do que para torcer por uma vitória do Brasil. Essa época de torcer por um triunfo brasileiro a qualquer custo já passou. Mas infelizmente, nosso ilustre treinador – e a nossa CBF – ainda pensam assim.

A atuação da seleção brasileira mais uma vez foi decepcionante. Mas esse não é o maior problema, afinal de contas meu próprio clube de coração teve atuações extremamente tediosas há algumas temporadas e meu sentimento por ele não se alterou nem um pouco. Mesmo que eu reconheça meu radicalismo associado à seleção, suspeito que parte do meu sentimento está presente na população brasileira. Lembro da época em que as ruas ficavam vazias no horário das partidas da seleção brasileira. Claro que a seleção ainda possui uma marca valiosa e grande mídia, mas tenho a impressão de que ela não mobiliza massas como já fez um dia.

O grande problema é que o diagnóstico que indica que as pessoas estão perdendo o interesse pela seleção ainda não foi feito pela CBF, e se foi feito, nada tem sido realizado para mudar o quadro. O Brasil faz mais jogos na Inglaterra do que em território nacional, tornando Londres a verdadeira casa do time brasileiro. Quando a seleção vem jogar no Brasil, os ingressos para acompanhar um time nada empolgante chegam a 600 reais. A equipe titular conta com jogadores desconhecidos do grande público, que foram embora muito cedo ou mesmo nunca jogaram profissionalmente por aqui. Além disso, os gigantescos escândalos de corrupção envolvendo a CBF e patrocinadores aceleram o processo de distanciamento e até rejeição da seleção brasileira.

E agora, Que Fazer?, diria um certo revolucionário russo. Para ser sincero, não tenho esperança de uma mudança estrutural no futebol brasileiro e nem sei a fórmula definitiva para recuperarmos a paixão pela seleção. Mas sei que é possível, sim, fazer com que a seleção brasileira seja mais atrativa para os torcedores. Que tal a seleção voltar a jogar mais frequentemente em seu território, e com preços de ingressos mais acessíveis (preços coerentes com o medíocre futebol da seleção)? Que tal nosso técnico propor uma equipe com um futebol um pouco mais vistoso? As questões são muitas, e pretendo em textos futuros tentar analisar a incompetência de Dunga e o quanto a sua mentalidade está associada com o processo de decadência do futebol brasileiro. No mais, não creio que o maior problema seja a derrota para a Colômbia, mesmo que o Brasil tenha feito uma péssima partida. Da mesma maneira que não me empolgo com títulos da Copa América e Copa das Confederações, também não acho que é o fim do mundo perder alguma dessas competições. O período para se fazer testes é agora, para em 2018 o Brasil ter um time coerente com sua história vencedora e de apresentações memoráveis. Porém, o que se vê é um técnico que quer a vitória acima de tudo, que não pensa a longo prazo e pouco preza por formar uma seleção pautada por um futebol ofensivo. Para Dunga, o importante são os números, mesmo que esses números não representem nada.

A luta é mesmo pelo título?

18062015

Lucas de Moraes Oliveira

O Atlético de Levir Culpi vai em busca do primeiro campeonato nacional desde 71 no Campeonato Brasileiro de 2015. Em comparação à melhor campanha do alvinegro mineiro no Brasileirão de pontos corridos (terminou em segundo lugar em 2012), é possível perceber que o Galo tem um elenco melhor esse ano, apesar de não ter um quarteto ofensivo tão qualificado.

Em 2012, Ronaldinho Gaúcho, Bernard, Diego Tardelli e Jô eram os responsáveis pela criação e conclusão de jogadas. Já esse ano, Levir ainda não definiu um ataque titular, tendo em vista que ele tem trocado Thiago Ribeiro, Maicosuel, Carlos e Giovanni Augusto constantemente. Os únicos que permanecem garantidos são Dátolo (jogando como um segundo volante, mas, claramente, tendo uma função muito mais ofensiva do que defensiva), Luan (fora da equipe por enquanto por causa de um estiramento muscular na coxa) e Lucas Pratto. Só não dá pra entender o porquê de Dátolo continuar intocável se não vem atuando em bom nível.

Após sete rodadas, o Galo mostrou que terá que resolver alguns problemas se quiser tentar o bicampeonato. O time tem sofrido muitos gols, o que talvez seja efeito do esquema tático com um volante. Outro problema é a falta de regularidade dos seus meia-atacantes. Thiago Ribeiro, Carlos, Maicosuel e Giovanni Augusto têm falhado em alguns jogos. Patric tem deixado muito a desejar na lateral direita com seus cruzamentos ruins e suas falhas na defesa.

O que seria o ponte forte da equipe, o estádio Independência, não serviu de nada nos últimos dois jogos (uma derrota para o Cruzeiro e um empate contra o Santos). O clássico mineiro foi decidido por dois erros. Patric perdeu a bola para Gabriel Xavier e o resultado foi a virada da Raposa. Alguns minutos após a virada, Giovanni Augusto vacilou e Marquinhos fez um golaço. Contra o Peixe, mais duas falhas. No gol de Ricardo Oliveira, Leonardo Silva ficou sozinho com o atacante e vacilou. No gol de Gabriel, Giovanni Augusto e Patric (sim, mais uma vez) não se entenderam e deixaram Victor Ferraz sozinho para cruzar para a finalização de Gabigol.

Agora vem um clássico pela frente no Maracanã contra o Flamengo. Um grande desafio para o Galo tentar se reerguer no Campeonato Brasileiro. Esperamos que o Levir perceba que o Dátolo não está em uma boa fase e opte por um outro armador ou por Guilherme, que estava numa ótima fase antes de se machucar duas vezes esse ano.